Por LUSA
Analistas cabo-verdianos disseram hoje que o aumento da tensão no PAICV, oposição, com quatro candidatos às eleições internas de domingo, pode ameaçar a unidade para enfrentar as legislativas de 2026 e até debilitar a democracia.
“Em Cabo Verde, temos um sistema onde, a nível central, existem dois grandes partidos: o MpD (Movimento para Democracia, no poder) e o PAICV (Partido Africano para a Independência de Cabo Verde): para garantir um desenvolvimento democrático sólido, estes precisam de estar organizados”, disse à Lusa, João de Deus Carvalho, analista político.
Carvalho defendeu que qualquer candidato a liderar estas forças deve “ter consciência de que a disputa interna não pode pôr em causa a união do próprio partido, sob pena de se fragilizar a própria democracia”.
São quatro a disputar a liderança do partido, nas eleições de domingo, um cenário bem diferente do de 2021, em que Rui Semedo (que há dois meses anunciou que não se recandidatava) foi o único a concorrer.
Na altura, o PAICV perdera as legislativas para uma maioria absoluta do MpD, pela segunda vez consecutiva.
Este ano, o ambiente é diferente, com a força política animada pela vitória histórica nas autárquicas de dezembro.
A força política conquistou, pela primeira vez, a maioria dos municípios (15 de 22) e muitos militantes esperam que seja um presságio de mudança governativa a nível nacional, nas legislativas de 2026.
“Com a vitória do PAICV nas autárquicas de dezembro, aumentou a perceção de que o partido pode estar mais próximo de regressar ao poder” e “isso fez aumentar o apetite” pela liderança, disse João de Deus Carvalho.
Os quatro concorrentes nas eleições internas de domingo disputam o lugar de candidato a primeiro-ministro pelo PAICV nas eleições que deverão ter lugar daqui a cerca de um ano — e para as quais o MpD já escolheu a recandidatura do atual primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva.
O piscar de olho às legislativas nota-se na prioridade dada pelos candidatos nas suas mensagens, que não se circunscrevem a temas internos do partido.
Entre os quatro candidatos está Francisco Carvalho, presidente da Câmara da Praia, que apanhou o balanço da vitória reforçada na capital do país para se lançar à conquista do partido, prometendo “Um PAICV para todos, para um Cabo Verde para todos”.
Nuias Silva, reeleito presidente da Câmara de São Filipe, na ilha do Fogo, foi igualmente uma das caras da vitória nas autárquicas de dezembro e promete “Mais PAICV, por Cabo Verde”.
O deputado pelo círculo da Europa, Francisco Pereira, apresenta-se também ao sufrágio interno, assim como o empresário e presidente da Câmara de Turismo de Cabo Verde, Jorge Spencer Lima — todos com propostas divulgadas nas redes sociais e ligados à diáspora.
“Uma coisa é ganhar o partido, outra é o país. Os militantes terão de ter a consciência de que, mais do que escolher um líder para o partido, estarão a escolher um candidato a primeiro-ministro para este país que não pode ficar adiado e que não tem margem para errar”, referiu António Ludgero Correia, analista político, à Lusa.
Correia lembrou que é a primeira vez que um partido em Cabo Verde tem tantos candidatos numa eleição interna e disse que tal demonstra “vitalidade interna e uma certa democracia partidária”, mas apresenta desafios.
“O problema é: como vão conduzir este processo? Se criarem clivagens, será muito complicado, porque quem vencer terá apenas 10 a 12 meses para preparar o partido para as legislativas de 2026”, apontou.
Na leitura de João de Deus Carvalho, “há, pelo menos entre as duas principais candidaturas (Nuías Silva e Francisco Carvalho), uma tensão muito grande”.
“Tenho lido opiniões no espaço público a apelar à calma para que esta luta interna não se traduza numa divisão”, referiu, recordando declarações recentes de Júlio Correia, antigo governante e dirigente do PAICV, que considerou 2025 “o ano de todas as ansiedades”.